SINOPSE DO ENREDO 2019 DA UNIDOS DE MANGUINHOS

 

LOGO ENREDO Manguinhos 2019

 

'Carne vale', em Latim tem ligação com o chamado “adeus à carne”. Significa o jejum, abstinência em relação à carne, que era praticada no período que vinha logo em seguida aos festejos carnavalescos. Desde o princípio esta festa se notabilizou pela presença da alegria, da extravagância e pelos exageros comportamentais que com o tempo começaram a se distanciar do seu passado religioso.

Depois disso a Igreja Católica acabou por fazer uso do carnaval como uma festa para anteceder o período de quaresma, fazendo com que se tornasse uma festa mais religiosa para muitas regiões da Europa. Estas manifestações acabaram por serem trazidas para o Brasil pelos Portugueses. Entre o sagrado e o profano, a devoção, a celebração das festas momescas, se misturam com as tradições e ritmos dos indígenas depois da chegada dos negros africanos, fazendo com que o carnaval brasileiro ganhasse diversos contornos diferentes, marcados pela miscigenação cultural.

A maior expressão cultural consolidada de um povo vem de suas histórias, fatos e cultura, portanto, nosso carnaval é considerado a maior expressão cultural do nosso país e tendo a alegria como a identidade do povo brasileiro!

É Carnaval! E nesse dia de festa, a Unidos de Manguinhos, nos seus 55 anos de existência, vem mostrar mais uma vez a alegria de fazer parte da maior festa do planeta. Vamos deixar a emoção tomar conta de nós e, mesmo que por poucos dias, vamos brincar sem pensar no amanhã, amar mais uma vez e com a força de um sorriso transformar nossa cidade.

A partir de agora o que vale é o faz de conta, ser herói, ser personagem e acreditar de repente que a vida é um sonho, nos ritmos das marchinhas, dos sambas, o coração bate mais forte, como num passe de mágica a alma flutua e os pés se soltam do chão. Nesta festa o que vale é cantar, dançar, ser feliz, ser louco, gênio, artista, rei e rainha desse mundo chamado Carnaval.

É neste superespetáculo das Escolas de Samba que a comunidade de Manguinhos, através de suas fantasias, retornará ao passado para reviver desde os idos tempos dos áureos carnavais que é sempre muito comemorado em nossa cidade e traz para a avenida do povão, mais que um mero desfile, uma homenagem. Não só a nossa maior festa, mas também a alegria do carioca em comemorar o nosso carnaval e as manifestações dos foliões. E assim, entre marchinhas e sambas enredos, festas e tradições advindas dos dias de folia.

Nessa viagem cultural que coroará Momo como rei, outros personagens serão lembrados e farão parte dessa grande festa da trupe da folia.

Assim a Unidos de Manguinhos convida a todos para que tragam sua felicidade e vistam sua fantasia… Chegou a nossa hora! Pois nesta noite de 'Carnevale', nossa comunidade vem cantar e uma só voz ecoará: É CARNAVAL!

 

Diângelo Fernandes

Carnavalesco

Guerreiros de Jacarepaguá 2019: “Cid Carvalho: Guerreiro que é Guerreiro não foge à luta”.


Cid Enredo 2019

Sinopse:

Ainda me recordo bem das águas do São Francisco empurrando a balsa. 
Para trás ficava Alagoas e a seca cruel que ainda hoje segue transformando famílias inteiras em retirantes em busca da cidade grande e de dignidade.
Cheguei ao Rio bem pequeno, com poucas lembranças da terra natal. Mas o nordeste, seu povo e sua cultura estão em meu sangue. E com muito orgulho.

Creio que essa tenha sido a minha primeira luta: combater os que nos chamam de cafonas. E já na adolescência, montei com minha família uma quadrilha de São João aqui no Rio, para mostrar a nossa força cultural.

Porém nunca me tranquei aos encantos da Cidade Maravilhosa. Pelo contrário, a gratidão à cidade que nos acolheu me fez dela um admirador e defensor, um fã de tudo que por aqui acontecia.

Naturalmente meus olhos brilharam com os desfiles das Escolas de samba! E como brilharam!

E esse encanto me fez largar a administração de empresas para ir trabalhar com Joãozinho Trinta, na Beija-Flor de Nilópolis. O ano era 1989.

Lá se vão quase trinta anos!

Nunca me esquecerei do dia que entrei pela primeira vez no barracão da Escola. Quase fiquei paralisado. Emoção que só perdeu para a sensação que senti quando vi Joãozinho, ao vivo, na minha frente.

Ali estava um nordestino como eu. Um nordestino que também havia sofrido o pão que o diabo amassou até chegar onde havia chegado. Aquele pequeno grande homem foi dispensado do corpo de bailarinos do Teatro Municipal por ser, pasmem, baixinho. Azar do Teatro e sorte nossa, amantes do carnaval. Ganhamos o maior de todos, o gênio que encantou gerações com seu talento.

A maior de todas as lições que aprendi com o “baixinho” foi que, sempre que possível, os enredos devem levar conhecimento e cultura ao povo. Afinal, estamos falando de “Escolas” de samba, né?

Além disso, ali era a oportunidade de defendermos as minorias, os excluídos, os abandonados, os perseguidos,enfim, a gente sofrida dessa nação. Além de denunciarmos os desmandos dos governantes.

Com a saída do mestre da Beija_Flor, fui trabalhar com outra professora. Entre 1993 e 1996, aprendi a outra face de se fazer carnaval. Enquanto Joãozinho era artista no sentido da palavra, Rosa era, e ainda é, extremamente técnica. Nesse período, plantas baixas e projetos em escala, entraram na minha vida.

Sempre afirmo, com uma dose de orgulho, confesso, que sou filho de uma noite de amor entre Joãozinho e Rosa Magalhães. Literalmente, caso seja preciso, me viro nos trinta, improviso, reciclo. Mas, amo um barroco, um rococó, o luxo.

Em 1987 para o carnaval de 1989, já de volta à Beija-Flor, seu Anízio, através de uma sugestão do Laíla, me convidou para compor a Comissão de carnavalescos da Beija-Flor. Recordo-me do susto que levei. Jamais imaginei, nem nos meus maiores sonhos e desejos, me tornar carnavalesco. E ainda mais da Beija-Flor do meu mestre Joãzinho Trinta! Diante de Anízio e Laíla, tentei disfarçar a tremedeira e esconder as mãos suadas e frias. Mas topei. Ora bolas, sou nordestino e ariano. A gente balança, mas não cai.

Entre o carnaval de 1989 e 2006, defendemos a cultura amazônica, os negros, os oprimidos. E, denunciamos os desmandos de governantes. Nesse período, ganhamos quatro títulos e quatro vices. E com direito ao tricampeonato nos anos de 2003, 2004 e 2005!

Para o carnaval de 2007, depois de uma conversa de pai para filho com o Anízio, resolvi seguir carreira solo. O coração pedia pra ficar, mas a razão me orientava à conhecer o mundo lá fora. Me senti como um filho que tem a necessidade de sais da casa dos pais, mesmo que seja pra quebrar a cara e pedir pra voltar. Foi doído pros dois lados, mas foi necessário.

E assim aconteceu.

Em 2007, deu-se a metamorfose. Fui pra Vila Isabel.

Em 2008, na Mocidade Independente de Padre Miguel, influenciado pela história de Dom Sebastião, rei português desaparecido numa batalha nas areias do Marrocos, retratei o sebastianismo no Brasil.

Em 2009, na Estácio de Sá, contei a história da nossa chita ou chitão, tecido popular, principalmente nas manifestações culturais nordestinas e que, através de pesquisas, descobri que tem sua origem na Índia.

Em 2010, novamente na Mocidade, busquei os diversos paraísos. Do famoso e bíblico Jardim do Édem, ao paraíso da loucura que é o nosso carnaval. Ainda na Mocidade em 2011, mostrei a origem agrária dos festejos momescos, através do enredo A Parábola dos Divinos Semeadores.

Em 2012 e 2013, tive a honra de assinar os carnavais da Estação Primeira de Mangueira. E o carnavalesco que já passou por isso, sabe do que estou falando. Mangueira não cabe explicação. Mangueira precisa ser vivida, vivenciada. Cacique de Ramos (12) e Cuiabá (13), me levaram à experimentar emoções inesquecíveis! Salve a verde e rosa!

Para 2014, retornei para uma segunda experiência com Vila Isabel. E foi, certamente, o maior desafio da minha trajetória profissional. E a mais triste lembrança também. E não me refiro ao povo de Noel, gente bamba da melhor qualidade que trago no meu coração com imenso carinho e respeito. O fato é que, por diversos motivos, a diretoria da época não conseguiu acabar o projeto daquele carnaval e, diga-se de passagem, não foi por falta de aviso da minha parte.

Nesse ano, como faço sempre, entrei atrás da última alegoria pronto para receber uma vaia estrondosa. Eu estava triste e envergonhado. Mas, coitado daquele que duvida da sabedoria popular. Para meu espanto, quando pisei a pista no setor um, fui recebido com aplausos incentivadores e verdadeiros. Chorei, e assim permaneci até o final do desfile. Nunca, nunca mais esquecerei daquela noite. Obrigado povo do samba.

De volta à Mangueira para o carnaval 2015, cantamos a força da mulher mangueirense e brasileira. Sempre em primeiro lugar.

Foi nesse mesmo ano que me aventurei por terras capixabas. Conheci a Mocidade Unida da Glória, a famosa MUG, e assinei três carnavais seguidos. Ganhamos 2015, 2016 e ficamos em segundo em 2017. Belas recordações dessa época em que os sambistas capixabas me receberam de braços e corações abertos. Valeu muito!

Mas, diz a sabedoria popular, que o bom filho à casa retorna.

E eu voltei!

E foi lindo de se ver e sentir tanto carinho, tanto amor do povo nilopolitano e de todos aqueles que amam o carnaval independente de bandeiras.

E, graças aos deuses do carnaval, ainda tive a sorte de colaborar com uma apresentação épica, daquelas que ficam marcadas para sempre em nossas memórias.

O enredo Monstro é Aquele que Não Sabe Amar: Os Filhos Abandonados da Pátria Que os Pariu, era um resumo das minhas lutas. Um retrato desse povo tão sofrido e historicamente abandonado desfilou diante de um público abismado com tão dura realidade exposta ao mundo. Foi um grito, um desabafo, um pedido de socorro corajoso. E que valeu o título de campeã do carnaval 2018.

A grande verdade é que pensava já ter vivido todos os tipos de emoções nesses quase trinta anos de trabalho dedicados ao carnaval. Pelo menos pensava.

Essa certeza se desfez no exato momento que recebi uma ligação do presidente da Guerreiros de Jacarepaguá, a caçulinha do carnaval carioca, que desfilará pela primeira vez em 2019, no grupo E da Intendente Magalhães. E para minha surpresa e susto, sou convidado à ser o enredo da Agremiação. Lógico que à princípio não aceitei!

Me imagino fazendo enredos, jamais sendo um.

E, além disso, entendo que temos nesse imenso país, um número infindável de personalidades que merecem essa honraria.

Mas o senhor presidente pegou pesado. Falou de carisma, de agregar valores, de colaboração. Mas, o que mais me pegou pelo pé foi o grande desafio. Não o de me tornar enredo, mas o de colaboração. Erguer uma nova Escola de samba num momento tão complicado do nosso país, não é tarefa pra fracos. E os desafios me motivam, me alimentam a alma e a existência.

E aqui estou!

Sem vaidade, sem estrelismo, mas com muito gliter nos olhos e gratidão no coração!

Podem me chamar de cafona, podem gostar ou não do meu trabalho. Mas ninguém pode negar que sou um guerreiro. Da vida e do carnaval.

E hoje, acima de tudo, sou mais um dos Guerreiros de Jacarepaguá!

SINOPSE ENREDO ACADÊMICOS DO CUBANGO 2019

 

Logo Cubango 2019 2

IGBÁ CUBANGO
A ALMA DAS COISAS E A ARTE DOS MILAGRES

Objetos de poder, objetos de devoção, objetos-dádivas, objetos que possuem alma e contam histórias, objetos de pedir e pagar, objetos que traduzem graças, objetos encantados, objetos-amuletos, objetos-relíquias, objetos que operam milagres – e que mentem milagres também. O GRES Acadêmicos do Cubango pede a proteção de Babalotim, o “ídolo menino” que completa 40 anos, e agradece a São Lázaro, o padroeiro, pelo sonho vivido no último cortejo. Romeiro, cada sambista carrega consigo as suas obrigações. O que pretendemos contar são causos da religiosidade popular brasileira a partir da relação de cada sujeito com os seus objetos de culto. Somos devotos dos tambores ancestrais: rum, rumpi e lé. O desfile é o nosso ex-voto, o samba é a nossa graça. Porém é preciso cuidado com as promessas dos falsos profetas – novíssimos Reis da Vela com as suas coroas de lata, votos que perpetuam o medo e o preconceito.
Sambemos!
Carrego de Exu eu não quero carregar. Mas amuleto, o que é que há?
– Ko si ọba kan, ofi, Ọlọrun.

 

Logo Cubango 2019

SINOPSE DO ENREDO

1 – Igbá Cubango

Na festa de Domurixá
em homenagem a Oxum
Deusa da nação Ijexá
onde a figura principal
era o boneco Babalotim
mensageiro da alegria, da força do axé
um ídolo menino, levado por menino em sua fé
e assim teve origem o Afoxé

Heraldo Faria e João Belém – Afoxé

Igbá Cubango! Guardamos nessas cabaças as memórias antepassadas. Fundamentos. Levamos para a Avenida o peji das nossas vitórias: evocamos o dom de Afoxé, o samba que se fez milagre. Assentamos, aqui, nossa história. Da palha fazemos um trono. O ídolo-menino de outrora é revivido na Passarela: que todo componente da escola a ele dirija um pedido. Valei-nos, Babalotim! Oxum traz os seus axés: pedras do fundo do rio, pentes de tartaruga. Otás. São Lázaro se transforma: Obaluaê, Omolu, Xapanã, na porta da nossa quadra, no Morro do Abacaxi. Saúda e protege os sambistas, que a ele oferecem presentes. Giram laguidibás, giram saias, giram guias. Chifres de búfalos, asas de besouros. Mães-baianas, turbantes e panos da costa, cobrem o chão de pipocas. As mãos nos atabaques, os pés na terra. Os corpos-terreiros fervem e alguém, enfim, anuncia: agarrem as suas figas para mais uma sagração!

2 – De pedir proteção

Laguidibá
não é simples ornamento
é colar de fundamento
você tem que respeitar
(…)
Laguidibá
é adereço muito certo
é coisa de santo velho
do Antigo Daomé

Nei Lopes – Laguidibá

Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. O barroco tropical brasileiro reuniu em um mesmo oratório as relíquias dos santos de lá às penas caboclas de cá. Nos balangandãs de prata, romãs e muiraquitãs. Medalhas. Uma figa, uma rosácea, um coração, um crucifixo. Búzios, firmas, fitas, fios de conta. Dentes de animais encastoados. Pulseiras, colares, cocares. Calungas. Me banhei com guiné, alfazema e dandá. Defumei com quarô, benjoim. Patuás. Ourivesaria sagrada, jóias de mandingueiras. Quase tudo se faz amuleto, pedir proteção é de praxe – “basta encontrar na rua um fetiche qualquer, pedra, pedaço de ferro ou concha do mar”, escreveu João do Rio, nas quebradas. O seguro morreu de velho e é preciso se precaver: fechar o corpo, tomar a sorte, ganhar coragem, fazer os nós. Nos sacrários das sacristias, nos segredos dos Candomblés. Ebós. Arriar comidas nos entroncamentos. Carrancas pra navegar, máscaras nos bailados. Terços e escapulários – e um pouquinho de pó de pemba.

3 – De pagar promessas

No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.
(…)
No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.

Carlos Drummond de Andrade – Romaria

Pedido feito, graça recebida – então é preciso pagar. Caminhar, seguir romaria. Carregar uma cruz tão pesada, o drama de Zé-do-Burro. Nas mãos calejadas da lida, cem mil corações em brasa. Ex-votos do Brasil inteiro desenham um mapa de pernas. O catolicismo popular expressa as andanças da nossa gente: Bonfim, Nazaré, Matosinhos, Bom Jesus, Pai Eterno, Canindé, Monte Santo, Juazeiro, e lá se vai a multidão cantando. Que ex-voto levo à Aparecida, se não tenho doença e só lhe peço a cura? – questionou Adélia Prado. São Judas Tadeu – Niterói. A Candelária, a Penha, a Penna. Nos “museus das promessas ou dos milagres”, como o descrito por Jorge Amado, vê-se a sobreposição de dádivas: barro, cera, madeira, papel. São partes do corpo, são pinturas, são retratos e miniaturas (de casas, de bichos, de barcos, de gratidão). Cartas, bilhetes, roupas, diplomas. Vitalino esculpiu ex-votos, Mestre Fida é uma referência. Artistas contemporâneos revisitam o imaginário – mesmo o Bispo do Rosário, que tanta alegria nos deu, a quem novamente rogamos: olhai por nós, nobre peregrino! Cada rosto esculpido foi dor alentada. (…) Deixa a dor nas aras, como ex-voto aos deuses – e segue o teu destino!

4 – Da (falsa) promessa que é dívida

HELOÍSA – Ficaste o Rei da Vela!
ABELARDO I – Com muita honra! O Rei da Vela miserável
dos agonizantes. O Rei da Vela de sebo. E da vela feudal que nos fez
adormecer em criança pensando nas histórias das negras velhas…
Da vela pequeno-burguesa dos oratórios e das escritas em casa… (…)
Num país medieval como o nosso, quem se atreve a passar
os umbrais da eternidade sem uma vela na mão?
Herdo um tostão de cada morto nacional!

Oswald de Andrade – O Rei da Vela

Mas há os falsos profetas e as falsas promessas à venda. Objetos de todo tipo, no shopping-cassino da unção. É água de benzer camisa, é caneta de assinar contrato, é tijolo para erguer a casa, é vassoura de varrer o diabo. Travesseiros para sonhos bons, redes de pescar vitórias. E velas aos borbotões! Não é outro que não a vela o mais famoso objeto votivo: de pedir, pagar, prometer. Abelardo I, o Rei da Vela, lucrou e fez fortuna explorando a miséria alheia. A crítica de Oswald de Andrade, Antropofagia e Tropicália, permanece ferida aberta no peito do Brasil atual. São promessas que viram cifras e moedas que se avolumam: qual é o preço a se pagar por um lugar confortável no céu? E que céu tão nublado é este, que mais exclui do que celebra a diferença? Dívidas que se pagam a preços exorbitantes – inclusive um outro tipo de voto, nem devoto nem ex-voto: o voto depositado nas urnas eleitorais.
Que as velas acendam pedidos de dias mais iluminados. Afinal, já dizia o poeta: há sempre uma promessa de alegria…
Amém, Axé, Evoé, Saravá!
-Glória pro fio de Exu!

Carnavalescos – Gabriel Haddad e Leonardo Bora
Autores e pesquisa do enredo – Gabriel Haddad, Leonardo Bora e Vinícius Natal
Nascido de uma confluência de sonhos, sequências de sincronicidades.
Agradecimentos especiais a Thiago Hoshino e Fred Góes

Sinopse Alegria da Zona Sul 2019

 

Alegria logomarca 2019

Apresentação/Justificativa 

“Eu abro a nossa gira com Deus e Nossa Senhora

Eu abro a nossa gira, samborê, pemba de Angola […]” 

Que Deus nos dê bons caminhos para cumprir a sagrada missão!

Pedindo bons auspícios ao grande mestre e seus mensageiros, o G.R.E.S. Alegria da Zona Sul se transforma em um grande terreiro e posiciona-se como agente desmistificador de um marco religioso do nosso país. A comunidade do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho reverenciará o “dom de curar” com o auxílio de mentores dos planos espirituais. Para o Carnaval 2019, honrosamente, apresentamos: “Saravá, Umbanda!”

A palavra “Saravá” é uma saudação dos umbandistas a força que existe em cada elemento constituidor da religiosidade. A etimologia da palavra também indica que a sua tradução pode ser considerada como “A Força Que Movimenta a Natureza”.

Em 1918, o Caboclo das 7 Encruzilhadas, através do médium Zélio Fernandino de Moraes, dita os preceitos que fundam a Umbanda. A caridade e o amor seriam as bandeiras norteadoras da religião que abriria as portas para que trabalhadores do mundo espiritual pudessem auxiliar os seres humanos.

Para realizar a condução deste enredo, o pavilhão vermelho e branco pede a interseção dos queridos pretos velhos. Através da luz destas entidades tão populares por sua imensa sabedoria trilharemos os caminhos para a realização deste Carnaval. São nossos vovôs espirituais que trarão para a Marquês de Sapucaí as bênçãos de aruanda!

“Quem vem, quem vem lá de tão longe

São nossos guias que vem trabalhar

Ô dá licença pelo amor de Deus, meu pai!

Ô dai-me forças nos trabalhos meus”

 

Sinopse

“Quando nesta casa entrei, eu louvei Maria

Santo nome de Jesus, eu louvei a luz do dia…”

Ainda era pequenino a primeira vez que fui levado à um terreiro de Umbanda pelos meus pais. Eu tinha a alma infinita de pureza, mas, já sabia que muitos não entendiam aquela religião. Não quê, eu criança, soubesse direito sobre tudo que aconteceria, mas, a minha curiosidade sobre o que eu iria encontrar me levou até aquele lugar.

Quando adentrei aquele espaço sagrado, o som dos tambores e o cheiro das ervas queimando no pequeno braseiro me chamou atenção. Haviam pessoas de vestes alvas e algumas velas acesas no grande altar iluminado. As palmas ecoavam firme junto ao som de uma pequena sineta que parecia badalar ao longe um chamado.

Perto daquele altar havia um senhor e uma senhora sentados, cada um em seu velho toco. Ele – com seu velho chapéu de palha sob a cabeça – tinha o corpo curvado sustentado por uma bengala de madeira e um cachimbo que soltava uma branca fumaça. Ela – com um lenço branco que cobria os cabelos -tomava um bocado de café servido em uma cuia.

“A fumaça do cachimbo, defumou congá

E o rosário de Maria, clareou congá!

Ô clareou! Ô clareou!

Clareou, seu congá, clareou!”

Com a fala meio embolada, diferente de qualquer pessoa que lá estava, aquele senhor me chamou:

– “Se achega, meu ‘fio’! ‘Nego véio’ tem história ‘pá’ ‘contá’. É o que ‘suncê’ veio buscar, né?”.

Eu sentia algo diferente, não sabia se era medo ou insegurança em participar daquele momento. Não havia mais como recusar. Tão logo, repeti o ritual que todos faziam ao se aproximar. Sentei-me em um banco a sua frente, e disse:

– “A bênça!” 

Então, gentilmente ele me respondeu:

– “Deus abençoa, ‘fio’! Eu ‘sô’ Pai Benedito que veio de Aruanda. Essa é Maria Conga, ‘tá’ sempre junto ‘deu’. Aruanda ‘fio’, é terra de paz, onde faz ‘moradô’ todo povo que ‘trabaia’ na seara de umbanda. Eles vão ‘fazê’ ‘chegadô’ nessa banda ‘pá’ ‘trabaiá’ e ajuda contá história.”

 

A humildade daquelas pessoas com o semblante amistoso me trouxe uma grande tranquilidade. Em suas histórias de vida, eles contaram ter vivido no tempo cruel do cativeiro. Sua luta para resistir foi intensa sem esquecer dos seus irmãos negros. Sua fé inabalável sempre foi o alicerce que os levou até a libertação. E o vovô completou:

– “E hoje nós ‘trabaia’ com ajuda das 7 linhas de Umbanda, é onde encontramos a força. Elas e nossos outros irmãos espirituais mandam a luz de Deus para o mundo. Elas clareiam os nossos passos para que ‘ocês’ não fique desamparados.” 

“No tempo do cativeiro, quando o senhor me batia

Eu gritava por Nossa Senhora, ai meu Deus!

Como a pancada doía…”

As pessoas de fora continuavam a chegar e ocupar os espaços vazios nos bancos. Estavam chegando outros trabalhadores para se apresentar. Ao som dos tambores, todos ecoavam:

 

“Caboclo é, eu sei que é

Caboclo é a luz do mato, é…”

Foi então que pude ouvir inúmeros brados que pareciam índios nas matas e tocadores de boi do sertão. Meu corpo se arrepiava enquanto aquele humilde senhor saudava a chegada de outros companheiros espirituais. Todos tinham o semblante sério, pareciam não gostar de brincadeira. Rapidamente apareceram cocares de penas coloridas e chapéus de couro. Então, o sábio me disse:

– “Meu ‘fio’, Umbanda tem mistério. O povo que ‘cá’ chegou ‘trabaia’ nas matas, nas campinas e com as ‘foia’. Faz defumação, beberagem, banho e reza firme!”

 

Aquele preto velho rapidamente me explicou que eram os caboclos que chegaram no terreiro. Eles traziam consigo os mistérios das folhas e sementes. Eram curandeiros, mandingueiros, donos de valorosa sabedoria.

“As ervas da Jurema curam,

As ervas da Jurema saram,

Quem é filho da Jurema nunca se perde nas matas”

 

Os tambores continuaram ressoando forte, o corpo daquelas pessoas parecia adormecer mais uma vez. Logo, ouvia-se uma, duas, várias gargalhadas. Larôye! Vibrava o terreiro saudando a chegada de Tranca Ruas e outras entidades. Foi aí, que aquela preta velha os apresentou:

– “Os nosso compadres e comadres são sentinela. É povo ‘trabaiadô’ que toma conta das porteiras e dos caminhos. São eles que ‘trabaia’ pra ‘defendê’ o terreiro e todos que cá estão.”

A fala simples e honesta daquela mulher me chamou atenção. Eu entendi naquele momento que Exu e Pomba-Gira são demonizados por quem os desconhece. Esses espíritos são trabalhadores que cuidam dos caminhos para que a luz de aruanda e os mensageiros possam chegar até a terra!

“Ê laroyê!

Exu jurou para Ogum

Que não traía Deus jamais

Exu essa casa é de Deus, Exu!

Exu não volta sua palavra atrás”

 

Passado algum tempo daquele trabalho, o terreiro parecia se preparar para acolher outras entidades. Um aroma diferente pairava pelo ar, pareciam incensos, um clima de magia tomava o espaço. E a aquela amável conselheira, disse:

– “Fio’! Esses espíritos que chegaram, vem de longe. Eles vêm do oriente, uma estrela brilhante guia eles. Sabem muito sobre amor e magia.”

 

Optchá! Arriba! Vibravam todos saudando a chegada dos ciganos e turcos. Lenços, pandeiros e fitas coloridas ornavam os corpos de quem estava incorporado. Faziam magias com punhais e moedas. Jogavam baralho, falavam sobre a sorte através das estrelas. Com flores e perfumes falavam sobre amor. Os cânticos saudavam:

“Quem nesse mundo nunca ouviu dizer?

Quem nesse mundo nunca ouviu falar?

De uma cigana, que mora naquela estrada,

Ela tem sua morada sob o clarão do luar…”

 

Chegavam ao terreiro outras entidades que traziam consigo um ar todo malandreado. Pareciam apaixonados boêmios, todos com seus chapéus levemente tombados sob a cabeça. As moças lembravam mulheres donas de um charme único e de grande refino, faziam recordar antigas damas da noite. Então, a vovó me diz:

– ‘Fio’, salve as ruas! Lá é o lugar desse povo que gosta de carteado e tem muita paixão em seus ‘trabaiadô’ para ajudar todos “ocês”. É amor, ‘fio’? Malandro ‘resorve’ isso.”

 

“Se a rádio patrulha chegasse aqui agora

Seria uma grande vitória, ninguém poderia correr

Agora que eu quero ver

Quem é malandro não pode correr”

O grande auxiliador desses trabalhos era um santo que eu só tinha visto em altar de igreja. No poder sincrético da Umbanda, Santo Antônio de Batalha é que intercedia por todos os pedidos realizados. E aquelas entidades todas pareciam também trabalhar em uma espécie de resgate espiritual, com a presença e as forças de Deus para tirar outros espíritos que eles chamavam de “irmãos” e estariam perdidos em dimensões inferiores.

“Santo Antônio de Batalha

Faz de mim batalhador

Corre gira Santo Antônio

Tranca Rua e Marabô…”

Desta forma, os meus olhos brilhavam ao admirar aquela união de pessoas e entidades. Era sublime ver a chegada de mensageiros de todos os planos espirituais, cada um de sua “banda”, como eles diziam. Então, eu entendi que aquela liturgia nada mais era que a reunião de todas as bandas! Por isso, Umbanda! E o preto velho, rapidamente me diz:

– “Isso! ‘Suncê’ entendeu meu ‘fio’. Umbanda é coração aberto, Umbanda é caridade. Umbanda é ajudar quem precisa, neste e nos outros planos”

 

“Refletiu a luz divina, com todo seu esplendor,

É do reino de Oxalá, onde há paz e amor

Luz que refletiu na terra, luz que refletiu no mar,

Luz que veio de aruanda, para nos iluminar…”

Era mágico compreender como aquele momento transcendia o material, e há mais de um século, aquela liturgia religiosa fazia a ligação entre este mundo tangível com outros que não podemos ver. Foi aí que o vovô me revelou:

– “Um viva, ‘fio meu’, ao caboclo das 7 encruzilhadas! Foi ele que permitiu que cá nós estivéssemos, ‘pajuda’ ‘suncê’ e toda gente.”

 

Naquele novo ensinamento eu aprendi sobre a formação da Umbanda. Foi o Caboclo das 7 Encruzilhadas que abriu as portas da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade – através da mediunidade de Zélio Fernandino de Moraes – para acolher todos os espíritos que buscavam auxiliar os seres viventes e alcançar sua evolução em outros planos. Feliz, o vovô completou:

– “E nessa banda ‘fio’, tem criança como ‘suncê’ que vem ‘trabaia’ também. Faz estripulia e bagunça, mas, ‘trabaia’! Tem, ‘fio’, o povo das águas grandes da mãe sereia. Marinheiro e as ondina que vem ‘pra’ lavar todos as impurezas do corpo e da alma.”

 

“A marola do mar que está ‘marolando’

Filho de pemba, vai descarregando

Tira feitiço, tira malefício

Tira inveja, tira olho grande”

Então, eu já não tinha mais dúvidas, aquele momento de fé me indicava bons caminhos a seguir. De corpo purificado e a alma banhada em uma luz irradiante. As minhas mãos já até acompanhavam as palmas daquelas pessoas. Foi aí que um dos meus companheiros nessa caminhada, assim disse:

– “Meu ‘fio’, ‘tá’ chegando a hora de ‘girá!’ O ‘véio’ Benedito e a ‘véia’ Conga não se cansam desse ‘canzuá’, mas, o que devia ser feito Deus alumiou e agora vive no seu coração. Umbanda é isso. Paz e amor. Um mundo cheio de luz.”

 

Eu, já não fazia mais questão de esconder a emoção por aquele momento, e claro, não queria ter que me despedir dos meus guias nessa noite. Então, tomei a benção como outros tantos fizeram, e eles já cantando sua despedia, me disseram juntos:

– “Deus abençoe, ‘fio’ meu. Fica na paz!”

“A sineta do céu bateu,

Oxalá já diz que é hora!

Eu vou, eu vou, eu vou!

Fica com Deus e com Nossa Senhora”

 

Os meus velhinhos foram embora prometendo voltar. Aquelas pessoas pareciam acordar de um sono profundo. Seus guias voltaram para Aruanda. De lá permanecerão vigilantes de todos nós até sua presença neste mundo ser outra vez necessária.

Neste momento sagrado, em verdade, eu sou uma criança que compreendeu a importância que a Umbanda tem. Para vermos que o Brasil em que vivemos é isto, a reunião de todas as bandas! É mistura, é crença, é um infinito de fé com lugar para todos. Todos, irmanados!

Agora me faço o retrato desse povo de fé, querendo apenas ver a sua crença, seus terreiros e seus mentores espirituais respeitados. Buscando levar os trabalhos sociais em auxílio aos necessitados em cada canto desse mundo. Sonho em ver a humanidade despida os seus preconceitos, estendendo a mão para celebrar a caridade como comunhão de fé. Que os corações pulsem irradiando bondade para vencer todas as barreiras levantadas contra aqueles que não compreendem a Umbanda. Que os filhos de fé não esmoreçam na luta!

Hoje, vou contar e cantar sob a proteção do pavilhão encarnado na luta e no suor de um povo que não cansa de acreditar na tolerância e no amor. Bordado com o branco da bandeira da caridade e da paz do pai maior.

Compartilho o meu aprendizado com a Alegria da Zona Sul, e humildemente, vamos juntos cumprir a sagrada missão:

Saravá, Umbanda!

 

“[….] levando ao mundo inteiro

A bandeira de Oxalá!